Como cada um enfrenta seus males

Na vida, todos iremos lidar com dificuldades, obstáculos e perdas. Elas podem ser uma doença, um estilo de vida não saudável, dificuldades financeiras ou a morte de alguém querido.

De forma geral, chamamos esses males de estressores, que podem variar em intensidade e duração. Podem atingir o indivíduo, sua comunidade ou até seu país, como em desastres e guerras.

Quando o estressor encontra uma pessoa idosa, o organismo tem do seu lado a reserva: o conjunto de recursos disponíveis para enfrentar uma condição adversa.

A OMS chama esses recursos de capacidade intrínseca, formada pelas capacidades cognitiva, locomotora, psicológica, sensorial e vital (nutrição, função dos nossos órgãos). São recursos para enfrentar infecções, traumas, câncer, complicação de doenças crônicas, processos degenerativos e psiquiátricos.

Com o envelhecimento, essa reserva diminui, mas só a idade não interfere muito na capacidade do organismo de enfrentar adversidades.

Mas essa reserva vai declinando de fora progressiva e acelerada, tornando o idoso mais vulnerável. Nós, geriatras, chamamos isso de fragilidade.

Mas todo idoso é frágil? Não. Ela atinge cerca de 20% das pessoas com mais de 60 anos.

De modo geral, se caracteriza por lentidão, perda de peso, fadiga, fraqueza muscular, quedas, dependência, declínio cognitivo, sintomas psiquiátricos incapacitantes e falta de suporte social/familiar. A fragilidade aumenta o risco de quedas, perda de independência, hospitalização, institucionalização e óbito.

E começa uma batalha! Como essa pessoa enfrentará o ataque inimigo? Seus recursos serão suficientes? É nesse momento que surge o conceito de resiliência. Originado na física, o termo representa a capacidade de um objeto retornar à sua forma original após ser deformado.

Na geriatria, o resiliente consegue se recuperar e até se reerguer após uma experiência estressante. Uma boa analogia é a da árvore. O tronco representa nossos sistemas fisiológicos; os estressores são infecções, quedas, internações, etc; as raízes representam saúde, alimentação adequada, escolaridade, rede de apoio, ambiente seguro, propósito de vida, religiosidade e segurança financeira. Os frutos são independência, mobilidade e saúde mental e cognitiva.

A resiliência pode ser surpreendente! Quem nunca viu um idoso frágil passar por uma cirurgia de emergência, uma internação prolongada ou grandes perdas familiares e, mesmo assim, permanecer “de pé”?

Qual é o ponto de apoio que sustenta cada um, mesmo em sua fragilidade? Ainda não temos marcadores confiáveis e nem prever com precisão essa resiliência. Aumentar a reserva, reduzir estressores e favorecer uma recuperação rápida pode melhorar a resposta às adversidades.

De qualquer forma, essa resiliência deve ser construída cedo. Como? Vida física e cognitivamente ativa, alimentação adequada, vacinação, otimismo, propósito e conexões sociais. Já o acesso e acompanhamento regular de saúde identificam doenças e fragilidades precocemente, ajudando o idoso inclusive a se afastar de estressores como vícios, distúrbios do sono e medicamentos inapropriados.

E quando um idoso necessita se submeter a um tratamento cirúrgico e oncológico, por exemplo, mas às custas de evolução ou piora no grau de fragilidade?

Nessas situações, é importante o que chamamos de pré-habilitação, que são intervenções realizadas antes do evento estressante, visando ao aumento da reserva, como reabilitação nutricional, exercício físico, revisão medicamentosa, otimização de doenças crônicas, adequação ambiental e envolvimento da família.

Na vigência de estressores mais persistentes, não podemos deixar de falar dos profissionais da equipe multi-disciplinar, como enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, dentistas, educadores físicos, dentre outros. O trabalho dessa equipe é fundamental na recuperação do idoso que reduziu sua reserva e que se fragilizou.

Idosos com maior resiliência não só aumenta a expectativa de vida, mas melhora a qualidade de vida, reduz internações e as consequências da imobilidade. Esse papel não é só do indivíduo, sua família e dos profissionais de saúde. A sociedade e Estado também são responsáveis, melhorando a formação dos médicos e demais profissionais de saúde, e promovendo ambientes amigáveis a todos que envelhecem, com acessibilidade, respeito e inclusão.

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